O pai chegou com as fotos do aniversário. Tinha usado dois rolos inteiros. A mesa com doces, salgados e o bolo artístico feito pela mãe estavam lá. Ela era leitora dessas revistas que ensinam coisas artísticas para fazer em casa. O pai estava desapontado. Eram coisas pequenas que o desapontavam. Entre elas, minha postura, minha apresentação, ou talvez minha falta de bons modos no momento em que a máquina era disparada e o filme queimado. E lá estavam as fotografias para documentar minha falta. Era o dia do meu aniversário e eu não tinha me comportado de forma conveniente.
Por algum motivo eu fazia careta para a máquina. Alguém se preparava para tomar a minha imagem e eu contraía os músculos da face. Um pequeno selvagem desafiando quem lhe interpelava. Risos de um lado e decepção de outro. Mas enfim chegou o dia no qual o pai, francamente ultrajado, resolveu tomar uma providência.
Dois rolos inteiros, quarenta e oito fotos ao todo e um estigma para cortar a carne. Ele selecionou a melhor de todas as caretas já feitas na história universal da fotografia de classe média. Dez meninos sentados à mesa, brigadeiros, croquetes, pequenos copos plásticos com gelatina colorida, canudos recheados com maionese de batata e o bolo artístico da minha mãe. Na cabeceira da mesa, de costas para o fotógrafo, um menino torce o pescoço, inclina a cabeça para trás, cria uma improvável pose na qual boca e olhos trocam de lugar e surpreende o pai que dispara o obturador.
A imagem permaneceu enrolada com outras tantas até que o pai levou o filme para ser revelado. Um crime que até então aguardava em estado de latência. Foi esta imagem que ele separou e carregou na mão esquerda ao entrar em casa procurando por mim. A mão direita tinha o indicador apontado. Reclamou a via sacra inteira por conta daquela careta. Desprezível, eu não merecia aparecer em fotografias.
É claro que eu já estava convencido da minha variada capacidade para fazer coisas erradas. Mesmo assim, de forma um pouco embaraçada, tentei usar o meu dedo da mão direita para indicar na fotografia que, por favor, perceba meu pai, eu estava sentado na outra ponta da mesa, sorrindo de forma discreta, feliz da vida com minha festa de aniversário. O menino da careta tinha cabelo parecido com o meu, mas era outra pessoa, não era eu.
De onde eu tirei a idéia de apontar com o dedo? Que falta de tato. Sabia que o pai tinha razão. Embora aquela fotografia fugisse à regra, eu devia estar consciente de que sempre fiz caretas e de que sempre me comportei mal. Aquele pequeno engano, no qual alguém cumpriu aleatoriamente o papel que era meu, não deveria ser usado como peça de defesa. Afinal, não se tratava de mostrar quem eu era, mas o que eu era inclinado a fazer.
Há quem diga que a fotografia congela um momento que nunca mais será repetido. Nela fica guardada uma imagem que morre para viver eternamente. Pois bem, não preciso fazer uma ginástica no campo da ontologia para dizer que isto é mentira. Este momento se repete todo dia quando me acordo e quando me deito. Repete-se agora, não mais como fotografia, mas como filme dentro da minha cabeça. É graças a ele que hoje eu encaro a máquina e o fotógrafo oferecendo minha imagem domada. Sinta orgulho, meu pai.
