Sábado, Outubro 10, 2009

O pai chegou com as fotos do aniversário. Tinha usado dois rolos inteiros. A mesa com doces, salgados e o bolo artístico feito pela mãe estavam lá. Ela era leitora dessas revistas que ensinam coisas artísticas para fazer em casa. O pai estava desapontado. Eram coisas pequenas que o desapontavam. Entre elas, minha postura, minha apresentação, ou talvez minha falta de bons modos no momento em que a máquina era disparada e o filme queimado. E lá estavam as fotografias para documentar minha falta. Era o dia do meu aniversário e eu não tinha me comportado de forma conveniente.

Por algum motivo eu fazia careta para a máquina. Alguém se preparava para tomar a minha imagem e eu contraía os músculos da face. Um pequeno selvagem desafiando quem lhe interpelava. Risos de um lado e decepção de outro. Mas enfim chegou o dia no qual o pai, francamente ultrajado, resolveu tomar uma providência.

Dois rolos inteiros, quarenta e oito fotos ao todo e um estigma para cortar a carne. Ele selecionou a melhor de todas as caretas já feitas na história universal da fotografia de classe média. Dez meninos sentados à mesa, brigadeiros, croquetes, pequenos copos plásticos com gelatina colorida, canudos recheados com maionese de batata e o bolo artístico da minha mãe. Na cabeceira da mesa, de costas para o fotógrafo, um menino torce o pescoço, inclina a cabeça para trás, cria uma improvável pose na qual boca e olhos trocam de lugar e surpreende o pai que dispara o obturador.

A imagem permaneceu enrolada com outras tantas até que o pai levou o filme para ser revelado. Um crime que até então aguardava em estado de latência. Foi esta imagem que ele separou e carregou na mão esquerda ao entrar em casa procurando por mim. A mão direita tinha o indicador apontado. Reclamou a via sacra inteira por conta daquela careta. Desprezível, eu não merecia aparecer em fotografias.

É claro que eu já estava convencido da minha variada capacidade para fazer coisas erradas. Mesmo assim, de forma um pouco embaraçada, tentei usar o meu dedo da mão direita para indicar na fotografia que, por favor, perceba meu pai, eu estava sentado na outra ponta da mesa, sorrindo de forma discreta, feliz da vida com minha festa de aniversário. O menino da careta tinha cabelo parecido com o meu, mas era outra pessoa, não era eu.

De onde eu tirei a idéia de apontar com o dedo? Que falta de tato. Sabia que o pai tinha razão. Embora aquela fotografia fugisse à regra, eu devia estar consciente de que sempre fiz caretas e de que sempre me comportei mal. Aquele pequeno engano, no qual alguém cumpriu aleatoriamente o papel que era meu, não deveria ser usado como peça de defesa. Afinal, não se tratava de mostrar quem eu era, mas o que eu era inclinado a fazer.

Há quem diga que a fotografia congela um momento que nunca mais será repetido. Nela fica guardada uma imagem que morre para viver eternamente. Pois bem, não preciso fazer uma ginástica no campo da ontologia para dizer que isto é mentira. Este momento se repete todo dia quando me acordo e quando me deito. Repete-se agora, não mais como fotografia, mas como filme dentro da minha cabeça. É graças a ele que hoje eu encaro a máquina e o fotógrafo oferecendo minha imagem domada. Sinta orgulho, meu pai.

Sábado, Fevereiro 14, 2009

Em tom calmo, porém decidido, devemos negar; contra a guilhotina armada, mostrar o pescoço; contestar o rei – que anda obcecado com a aquisição de uma respeitabilidade imortal – e a sua corte – formada por um bando de patetas pretensiosos. Acima de tudo, devemos apagar do nosso horizonte o anseio de proximidade com esse arremedo de aristocracia. É fundamental rechaçar a canga que só cai em nossos ombros por conta do medo. Se for necessário, é claro, apenas em caso de efetiva necessidade, é nosso dever dar gargalhadas dos silogismos e circunlóquios reais – ele sabe o que fala, mas como é tosco! Uma última tarefa: vamos permanecer parados, desafiando o onipresente princípio obtuso de produtividade. Que relinchem os que querem fazer da vida uma corrida de cavalos – mais uma vez nos deparamos com a metáfora eqüina. Quanto a nós, convenhamos, o mundo nada pode contra quem sorri tranquilamente contra o desespero.

Segunda-feira, Setembro 08, 2008

Chegou ao escritório através de mensagem eletrônica. A urgência demandava o relaxamento dos procedimentos burocráticos. A grande comitiva de investigadores foi substituída pela dócil flexibilidade das ferramentas virtuais. Aberto o arquivo revelou-se a fotografia. Situação curiosa. Antes não era assim. Revelar não é mais a mesma coisa. Era uma palavra bonita. Mas isso não importa. Aberto o arquivo passou-se à análise das características marcantes. Quem identifica os traços potencialmente distintivos é o programa. Tem programa pra tudo. Estabelecidos os pontos fisionômicos de maior relevância a caçada teve início. A barra de rolamento deslizou verticalmente pelo banco de dados. Em poucos segundos localização e identidade do suspeito foram estabelecidas. Com um sorriso o agente punitivo recostou-se em sua cadeira. Restava apenas a velha tarefa de arquitetar um plano de captura e esperar pelo vacilo inevitável que acomete todas as presas. Esse mundo não perdoa boêmios. É preciso conscientizar o desviante a respeito da natureza mercantil de sua força de trabalho.

Sexta-feira, Agosto 29, 2008

Tenho comigo uma mortífera dose de veneno. Recluso e passivo diante do mundo acabei economizando muita toxina. Agora fico aqui como bicho selvagem que não contorna o instinto. Se os olhos brilham é porque detectaram uma possível presa. E se o corpo todo fica tão desperto é porque a caçada já começou. Carnificina no horizonte. Tempo para o acerto de contas. Vingança é o nome que arranjaram pra dizer que aquilo que faço não é justiça. Mentira. Minha lâmina é cega. Seu único guia é o sopro da razão. Ainda não sei se o Senhor abençoa. Mas não consigo esperar muito tempo pelo sinal do magnífico. Aprendi com minha mãe que oração sem ação não muda o mundo. E o terço todo eu já contei várias vezes. Tem quem pense que eu faço isto por prazer. Puro engano. Não queria que as coisas fossem assim. Sofro quando lembro que vou sangrar alguém mais uma vez. A diferença é que já aprendi o que fazer pra não deixar o sofrimento amolecer a vontade. E não é que ela existe sempre. Desta vez ela apareceu depois de muito tempo. Fiquei quieto no meu canto tentando ignorar o mundo. Fingi que nada era comigo. Não adiantou. Pois agora estou de volta e com o apetite aberto. Sou meu paralelo e fui colocado em movimento.

Segunda-feira, Fevereiro 11, 2008

Atendo o telefone, esta praga insistente que entope o meu sossego com um barulho enlouquecedor, sabendo antecipadamente da proposta que vou receber. Minha mulher tem reclamado deste meu estado constante de acautelamento. Meus amigos não reclamam. Quase todos tendem a fazer o mesmo, embora sejam poucos os que conseguem atingir o objetivo. Não é fácil manter o remanso quando as flechas de Jó apontam aleatoriamente para toda uma geração de lascados. Quem não vive num mundo com um mínimo de legibilidade é lascado.

É um dos editores da agência onde disponibilizo minhas fotografias. Digo que disponibilizo porque fico com vergonha de usar um verbo de natureza mais mercantil. Ele acaba de receber a encomenda de um projeto que julga sensacional, uma oportunidade singular para enriquecer minha carreira e valorizar o meu nome, minha marca. Diz que confia no meu talento, que admira minha espontaneidade e meu aparente descaso com as coisas. Finalmente, usando o tom mais jovial que é capaz de dissimular pede meu aceite.

Não recordo com precisão o caminho que percorri até adquirir meu jeito lacônico de confeccionar respostas. Talvez tenha surgido como um mecanismo de defesa, traço comum entre aqueles que se sentem constantemente em débito com a vida ou em permanente estado de ameaça. O fato é que não fiz esforços para apresentar minha negativa. Não tenho interesse em executar o projeto.

Ele não se faz de rogado. Conhecedor da narrativa bíblica sobre a transformação da água em vinho, converte-se ele mesmo em alguém completamente outro, um sedento por arrecadar os benefícios do ato milagroso. Deixando de lado a urbanidade, pergunta friamente se estou com sobra de cobres para ignorar a oferta. Já sei que a corrente de argumentos atrozes prosseguirá. Ofereço o ouvido enquanto volto meu olhar para a queda d’água do Valdir Cruz que está na tela do computador. Ouço a usual ameaça de que existe muita gente boa disponível e que ninguém está com a “vaga” conquistada, mas não consigo evitar o embaraço com esta fotografia em suporte inadequado. Fico constrangido pela fotografia fora do lugar, reduzida em si, despojada do seu encanto e disputando espaço com ícones espalhafatosos. Também fico constrangido ao imaginar uma pessoa levantando as mãos e simulando aspas enquanto fala “vaga”.

Digo que estou envolvido em outro projeto e que minha prioridade agora é concluir o documentário sobre o carnaval curitibano. Um longo silêncio por parte do editor é subitamente interrompido pela sua gargalhada forçada. Pergunta se estou falando sério e se ainda resta em minha cabeça um pingo de juízo. Ele tem razão, deixar uma fotografia tão perfeita na tela do computador é obra de quem foi abandonado pelo discernimento. Estou sem paciência para dar explicações, mas argumento que se trata de um folguedo verdadeiramente popular e com incrível feição familiar. Além disto, é um episódio que demanda a noção de meta-narrativa para ser compreendido. Faz-se novo silêncio. Ouço sua respiração acelerando, o prenúncio da perda de controle.

Não quero que ele me leve a mal. Pertencemos a mundos diferentes. Abro meu coração. Explico que o carnaval curitibano pode ser mágico através da narrativa e que é impossível coletar histórias tão inesperadas em outros carnavais. Ilustro: tem escola de samba evangélica fazendo evolução e ex-vocalista de banda punk puxando samba-enredo. Finalizo: mesmo sem querer, Curitiba guardou o verdadeiro espírito do carnaval brasileiro.

Ele não sabe o que dizer. De forma velada, faz mais algumas ameaças. Não fico perturbado. Acabo de perceber que ambos somos obrigados a assumir identidades que não queremos quando nos encontramos. Ele não tolera meus devaneios e gasta muita energia para eventualmente dissimular interesse. Não tolero o seu barbarismo de mercado e violento a alma quando tento contemporizar. É provável que em algum momento ele crie obstáculos intransponíveis ao meu trabalho. Aliás, não é apenas provável, é certo. Ele fará isso. Desligo o telefone aliviado. Ele pode apenas cumprir o seu destino, enquanto o meu permanece aberto. Isto faz toda a diferença.

Quinta-feira, Janeiro 03, 2008

Foi ao segundo andar com o coração na boca. Todos que trabalham lá sabem que tal pavimento é o abrigo dos poderes que inventam destinos e definem o verdadeiro conteúdo da felicidade. Por conta disto, enquanto subia as escadas, matutava com sofreguidão sobre a natureza do chamado. Nunca foi leitor de textos religiosos, assim como nunca cultivou o hábito de apreciar qualquer gênero de palavra escrita, mas guardava no juízo a idéia fixa de que, ali, dentro dos limites do lugar que, em tempos mais auspiciosos, funcionara um haras, a ninguém era dado o direito de conhecer o dia ou a hora.

Ensinam-nos os relatos históricos, tanto os oficiais e consagrados quanto os alternativos e replicantes, que diferenças abissais caracterizam as narrativas sobre o enfrentamento da incerteza. Enquanto alguns personagens rastejam, outros cortam a própria carne para preservar a dignidade. O que sabemos, podendo asseverar inclusive que nossas fontes são indubitavelmente confiáveis, é que o nosso personagem, aquele que ascende, jamais admitiu a própria charqueada. Convicto de que conquistas não devem demandar esforços desmedidos, é adepto de movimentos servis e atitudes desprezíveis.

Foi assim que, já cagado, abriu a porta para encontrar o nome do papa. Sentou e ouviu. Para delírio e espanto posterior de todos os daltons, ganhou flores. Regressou pela mesma porta como rosa, apto para ornar o jardim de malefícios da casa grande. Dali em diante, não há dúvida que paire sobre este fato, mesmo não havendo mais o haras, a lógica que rege o universo das estrebarias ficou definitivamente consagrada.

Dito isto, caros colegas, a questão central que nos atormenta é esta: durante quanto tempo continuaremos relinchando?

Domingo, Dezembro 09, 2007

Se eu soubesse alguma coisa sobre Sigmund Freud e psicanálise, poderia procurar a origem dos meus problemas na minha infância infeliz, na Irlanda. Essa infância infeliz privou-me da auto-estima, provocou espasmos de autopiedade, paralisou minhas emoções, deixou-me irritadiço, invejoso e sem respeito pela autoridade, atrasou meu desenvolvimento, complicou minha integração com o sexo oposto, impediu-me de me erguer no mundo e deixou-me quase inapto para a sociedade humana. A maneira como vim a me tornar professor e como continuei a ser professor representa um milagre e tenho de atribuir a mim mesmo a nota máxima por ter sobrevivido a todos esses anos em salas de aula em Nova York. Deveria haver uma medalha para pessoas que sobrevivem a uma infância infeliz e se tornam professores, e eu seria o primeiro da fila para receber a medalha, bem como qualquer coisa que possa servir de barreira para outras desgraças

Eu poderia sair à procura de culpados. A infância infeliz não acontece à toa. Ela é criada. Existem forças sombrias. Se eu apontar culpados, o farei com um espírito de perdão. Portanto, perdôo às seguintes pessoas: ao papa Pio XII; aos ingleses em geral e ao rei Jorge VI em particular; ao cardeal MacRory, que dominava a Irlanda quando eu era criança; ao bispo de Limerick, que parecia achar que tudo era pecado; perdôo a Eamonn De Valera, ex-primeiro-ministro (cargo que os irlandeses chamam de Taoiseach) e presidente da Irlanda. O senhor De Valera era um fanático gaélico semi-espanhol (cebola espanhola num ensopado irlandês) que orientava os professores em toda a Irlanda a incutir em nós, à força, a língua nativa e a retirar de nós, à força, toda a curiosidade natural. Ele nos causou horas de tormento. Não dava a menor bola para os vergões pretos e azuis que as varas dos professores deixavam em várias partes de nossos corpos jovens.

Perdôo também ao padre que me fez correr do confessionário, quando admiti pecados de masturbação e de pequenos furtos à bolsa da minha mãe. Ele disse que não demonstrei um adequado espírito de arrependimento, sobretudo na questao carnal. E, muito embora o padre tenha acertado em cheio, sua recusa a me conceder a absolvição pôs a minha alma em tal perigo que se eu tivesse sido esmagado por um caminhão na porta da igreja ele teria sido responsável por minha danação eterna. Perdôo a vários professores brutais por me puxarem pelos cabelos para fora do meu banco escolar, por me espancarem regulrmente com uma vara, uma correia e um caniço quando eu hesitava nas respostas do catecismo, ou quando não conseguia dividir de cabeça 937 por 739. Meus pais e outros adultos me diziam que era tudo para o meu próprio bem. Eu lhes perdôo por essas tremendas hipocrisias e me pergunto por onde anadam eles, neste momento. No paraíso? No inferno? No purgatório (se ainda existir)?

Posso até perdoar a mim mesmo, se bem que, quando olho para o passado, em várias etapas da minha vida, eu solto um gemido. Que imbecilidade. Que timidez. Que burrice. Que indecisão e que falta de jeito.

Mas em seguida olho de novo. Passei a infância e a adolescência fazendo exames de consciência e via a mim mesmo num perpétuo estado de pecado. Isso era o treinamento, a lavagem cerebral, o condicionamento, e desencorajava a presunção, em especial entre a classe dos pecadores.

Agora acho que chegou a hora de me dar o devido crédito ao menos por uma virtude: a tenacidade. Não é tão atraente quanto a ambição, ou o talento, ou o intelecto, ou o charme, mesmo assim foi o que me permitiu vencer os dias e as noites.

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Dados objetivos e quantitativos sobre o trabalho em sala de aula geralmente são apresentados como portadores de uma verdade absoluta. A passagem acima, retirada do livro de Frank McCourt, nos revela como a experiência de um indivíduo singular, quando filtrada pelo próprio sujeito e dotada de significado, tem valor universal.